quinta-feira, 12 de setembro de 2013

1, 2...Feijão com arroz

Engraçado como são as coisas no vai-e-vem que chamamos vida...

Em alguns momentos me pego sonhando com o pote de ouro lá do outro lado do arco-íris (por exemplo, quando me dá aquele desejo de comer justamente AQUELA sobremesa para a qual eu não tenho na dispensa nenhum dos ingredientes necessários. Ou quando me pego sonhando em ganhar na Mega-Sena acumulada e eu sequer fiz a aposta para AQUELE concurso). Em resumo, para que simplificar se dá para complicar, não é mesmo? Já em outras ocasiões, encontro prazer nas pequenas trivialidades da vida cotidiana. Ontem mesmo foi um desses deliciosos momentos de simples felicidade.

Mesmo não fazendo parte do meu cardápio diário, EU AMO FEIJÃO. De todos os tipos e cores. Preparado do modo "tradicional" ou servido em saladas frias. Raramente cozinho feijão à moda "tradicional" aqui em casa, pois com o calor que faz no Rio de Janeiro não é sempre que estou afim de um prato fumegante à minha frente. E eu prefiro o feijão fresquinho, cheiroso, com o caldo bem encorpado... Ou seja, aquele que vai bem com tudo, mesmo que seja só com farinha e molho de pimenta Tabasco. Confesso minhas desconhecidas raízes nordestinas: eu adoro comer feijão com farinha e molho de pimenta... Sem mais acompanhamentos. Ele assim é meu prato principal.

Como acabo tendo que congelar a maior parte do que é preparado, o prato acaba perdendo muito do seu encanto original (que para mim é aquele cheiro temperado, que invade a casa e deixa no ar uma lembrança boa de colo de mãe...).  Tudo bem que hoje em dia existem soluções industrializadas para "rejuvenescer" o feijão e deixá-lo com cara de quem acabou de sair da panela de pressão. Eu cheguei a me render a essa facilidade da vida moderna. Mas depois que eu me dei conta que cada sachê minúsculo daqueles contém QUASE 40% DA PORÇÃO DIÁRIA DE SÓDIO, para o bem da minha saúde, eu aboli este item da lista de compras sem prensar duas vezes. Nem sei como eu não havia me atentado para essa informação antes, já que tenho mania de ler rótulos (bulas, encartes, manuais, etc...) de tudo. Mas esse dados me passou despercebido. Apesar disso, no fim das contas, minha pressão arterial agradece.

Voltemos ao feijão. Mas antes, parênteses científicos: o intestino humano produz em média 3 litros de gases por dia e esse volume pode ser aumentado absurdamente por conta dos hábitos alimentares. A presença de polissacarídeos que não são digeridos na boca, estômago e intestino delgado - como é o caso dos fitatos nas sementes de leguminosas, faz com que esses açúcares sejam fermentados no intestino grosso pela flora bacteriana lá presente. Está aí o motivo pelo qual eu sempre deixo o feijão de molho de um dia para o outro: para evitar o borborigmo e os demais efeitos colaterais constrangedores causados pelos gases gerados pela ingestão de feijão.

Infelizmente não tinha em casa o gengibre fresco, que além de ser um tempero dos meus preferidos, também é ótimo para evitar esses efeitos adversos das leguminosas [esse segredinho eu aprendi com a Sangita, que cozinha maravilhosamente e é quem prepara a prasada lá do +RadheShyamRefeitorio Vegan-lactovegetariano]. Outro excelente aliado é a folha de louro, que não pode faltar num bom feijão. Esse ingrediente, que sempre tenho em casa, deve ser guardado em pote bem fechado, para conservar o aroma e suas propriedades.

Depois de deixar de molho de véspera, temperar generosamente com alho, cebola, pimenta do reino, louro em folha, e um pouco de páprica picante, deixei na pressão por uns 40 minutos. Enquanto isso, me deliciava com o aroma de tempero exalado pela panela. Para acompanhar o feijão, fiz um arroz. simples [mas não menos importante]. Afinal de contas, aquele feijão cheiroso merecia um acompanhamento à altura. E não há nada que combine melhor do que feijão com arroz. Nunca entendi porque alguns associam um ar pejorativo à expressão (sinônimo de "ralé", "insatisfatório'') Para mim, seja "arroz com feijão" ou "feijão com arroz", essa dupla é sublime! Pensei em fritar uns ovos, mas desisti. Arroz soltinho com feijão macio de caldo cremoso estava perfeito para mim. Não precisava de mais nada para me fartar.

Agora você deve estar se perguntando porque eu estou dando mil voltas num texto sobre culinária, depois de falar sobre minhas raízes nordestinas ocultas, colo de mãe, temperatura na capital fluminense, recomendações nutricionais diárias e fisiologia humana... Então, voltemos a falar das pequenas e deliciosas simplicidades da vida, o que me levou a sentir vontade de escrever esta postagem e compartilhar meu sentimento com vocês...

Comer um prato bem servido de arroz com feijão ontem à noite, com direito a repeteco, me deu uma sensação maravilhosa de satisfação... Bem-estar total. Sensação que nós costumamos sentir quando passamos por uma experiência agradável, damos boas gargalhadas ou simplesmente sentimos o cheio da chuva. Essa sensação causada pelas "pequenas boas coisas da vida": aquelas que não nos custam nada, não dependem de ninguém e estão acessíveis a todos nós, simples mortais. Enfim, esse prato de feijão com arroz me fez (re)lembrar de algo que eu nunca deveria ter esquecido: "tudo que preciso para atingi a PLENITUDE está dentro de mim."

sábado, 31 de agosto de 2013

Começar de novo, vai valer a pena

Aproveitando o ensejo de palavras que brotam, está mais do que na hora de retomar as postagens aqui no Nirvana na Cozinha. Já que as panelas tem me visto com mais frequência, e sobretudo com mais ânimo, a hora é essa! =]

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Você gosta de muçarela? Ou prefere mussarela?


Hoje eu e meu pai fomos às compras no supermercado. Nos deparamos com um anúncio que nos chamou a atenção: “Queijo muçarela”. Prontamente sacamos nossos celulares para registrar o que para nós seria mais um típico episódio da série “Pracas do Brasil”. 



Mas que nada, minha gente! Descobri que vínhamos (eu e meu pai) contrariando a norma culta da língua portuguesa. Desde sempre... Na maior inocência. Ou melhor, crente que estávamos abafando!

A palavra original é MUZZARELA, do italiano. Na língua portuguesa, ZZ é convertido em Ç. Então, o correto é MUÇARELA mesmo! O uso de "duplo s” ficou mais ao gosto do brasileiro, mas ainda sim não é o que recomenda a norma culta da nossa ortografia. Olhem que essa, na verdade, seria uma boa temática para conhecermos melhor os vocábulos que recheiam a culinária brasileira! Afinal de contas, tem muito ingrediente 'importado' na cozinha brasileira, né! Que tal,  +Deonísio da Silva? Isso lhe apetece? =]

Obviamente minhas receitas não mudarão em nada a partir de hoje, quando ao fazer a listinha de compras substituirei o SS por Ç no nome deste delicioso  ingrediente à disposição na seÇão de laticínios.  Mas eu não poderia deixar de assumir [publicamente, diga-se de passagem] minha ignorância (ou amnésia, não sei...). Então compartilho aqui essa ’descoberta’- mais ortográfica do que gastronômica - mas não menos relevante e descasco a lição 'psico-filosófico' da coisa: Além de concordar que já não sou tão boa no português quanto nos tempos de escola, ficou também em mim

(1) quando achamos que estamos certíssimos podemos, na verdade, estar cometendo um baita erro! 
(2) sempre podemos aprender algo (seja língua portuguesa ou culinária), não importando o lugar. Basta estarmos abertos ao conhecimento e ele se apresentará a nós. Até mesmo quando estamos cozinhando. Ou  fazendo compras no supermercado! =] 


Um parêntese: muita gente (eu também, embora prefira o bom e velho dicionário) recorre ao Google quando tem dúvida sobre a grafia de alguma palavra, para ver o que ele “sugere”. Mas nem sempre o que ele sugere é o que está de acordo com nossas regras ortográficas... 



No caso acima, o termo MUSSARELA é usado com muito mais frequência que a forma considerada correta, MUÇARELA. Para ver que o oráculo Google reflete o que está em uso em nosso dia-a-dia, mas não necessariamente quer dizer que seja o “academicamente” correto.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Próxima parada: queijo Minas

Na RJ-116 há uma lanchonete, dessas típicas de beira de estrada - só que bem 'limpinha', onde paramos quase sempre para tomar um suco ou fazer um lanche quando fazemos o trajeto Rio - Friburgo (ou vice-versa). Aliás, há um pão de queijo maravilhoso, que vale por uma refeição de tão grande, e é recheado por um pedaço de queijo Minas "da casa". Deliciosamente divino! A lanchonete está localizada nas terras de uma fazenda e por isso é possível fazer uma agradável parada e ficar confortavelmente sentado enquanto contempla o gado leiteiro à sombra de uma frondosa árvore no pasto. Ou ainda enquanto observa os pardais fazendo a "limpeza" do salão ao catar as migalhas que eventualmente caem durante a refeição dos viajantes mais afoitos. Lá também é possível comprar ovos caipiras (de todas as cores) e queijos provenientes da própria fazenda. Por isso, achei muito interessante o artigo "AS leis do queijo", escrito por Rafael Grassi P. Ferreira e publicado recentemente na página da Slow Food Brasil, na coluna "Com a mão no queijo". Fala sobre as normas federais aplicáveis à produção do queijo Minas. Para aqueles que - assim como eu - apreciam queijos de todos os tipos, incluindo o nosso genuinamente brasileiro, típico das terras de Minas, é interessante saber. Mesmo que ninguém se lembre de artigos, parágrafos e incisos na hora daquele lanchinho providencial de beira de estrada. Para ler o texto na íntegra, acesse aqui.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Slow down? Sloow food!

          Nesta primeira postagem do ano, trago a vocês uma ideia bem interessante a respeito de gastronomia e consumo consciente, que tem tuo a ver com minha maneira de pensar e aproveitar a culinária e os ingredientes maravilhosos que a Natureza tem a nos oferecer.
Confesso sem constrangimentos que eu nunca ouvi falar em "slow food", embora eu sempre brincasse a respeito disso, dizendo que era minha maneira de cozinhar (sem pressa alguma, curtindo o ato em si) e de me alimentar (muito lentamente, apreciando a comida, e por isso sempre a última pessoa do grupo de amigos a terminar a refeição). Então, o antônimo de "fast food" era "slow food", eu prefiro assim e pronto! =] Eis que passeando pelo Facebook encontrei uma postagem que me chamou atenção por conter exatamente este termo: "slow food"... Descobri duas coisas: (1) a expressão define um conceito elaborado na década de 80 por um italiano chamado Carlo Petrini [Viram, a expressão não foi 'inventada' por mim, como minha santa ignorância fazia pensar =}] e (2) define um modo interessante de encarar a gastronomia, enquadrando os prazeres da culinária ao contexto social, cultural e ambiental [Essas coisas que instintivamente e intuitivamente valorizo...].

          Lendo a respeito sobre este conceito, me identifiquei em vários aspectos. Segue abaixo o conteúdo publicado no site do Movimento Slow Food no Brasil:

"Comer é fundamental para viver. A forma como nos alimentamos tem profunda influência no que nos rodeia - na paisagem, na biodiversidade da terra e nas suas tradições. Para um verdadeiro gastrônomo é impossível ignorar as fortes relações entre prato e planeta. Além disso, melhorar a qualidade da nossa alimentação e arranjar tempo para a saborear, é uma forma simples de tornar o nosso cotidiano mais prazeroso. Esta é a filosofia do Slow Food.

Fundado por Carlo Petrini em 1986, o Slow Food se tornou uma associação internacional sem fins lucrativos em 1989. Atualmente conta com mais de 100.000 membros e tem escritórios na Itália, Alemanha, Suíça, Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido, e apoiadores em 150 países.

O princípio básico do movimento é o direito ao prazer da alimentação, utilizando produtos artesanais de qualidade especial, produzidos de forma que respeite tanto o meio ambiente quanto as pessoas responsáveis pela produção, os produtores.

O Slow Food opõe-se à tendência de padronização do alimento no Mundo, e defende a necessidade de que os consumidores estejam bem informados, se tornando co-produtores.
"É inútil forçar os ritmos da vida. A arte de viver consiste em aprender a dar o devido tempo às coisas." (Carlo Petrini, fundador do Slow Food)
A sede internacional do Slow Food é em Bra, na Itália. O Slow Food opera tanto localmente como mundialmente junto de instituições internacionais como a FAO - Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. Estabelece laços de amizade com governos em todo o mundo, prestando consultoria para o Ministério da Agricultura italiano, trabalhando com o presidente da câmara de Nova Iorque e colaborando com o governo Brasileiro.

Através dos seus conhecimentos gastronômicos relacionados com a política, a agricultura e o ambiente, o Slow Food tornou-se uma voz ativa na agricultura e na ecologia. O Slow Food conjuga o prazer e a alimentação com consciência e responsabilidade. As atividades da associação visam defender a biodiversidade na cadeia de distribuição alimentar, difundir a educação do gosto, e aproximar os produtores de consumidores de alimentos especiais através de eventos e iniciativas."

         Então, para refletirmos: Como podemos pensar a culinária e a gastronomia com uma visão mais 'holística' (seguindo o estilo 'slow food') em nosso dia-a-dia?

domingo, 11 de novembro de 2012

Pensemos na lagosta. E em todos os demais seres que vão parar em nosso prato

Queridos, depois de tanto tempo afastada deste blog, por conta de falta de inspiração e correria (que às vezes de completam), venho compartilhar uma matéria publicada na revista Piauí - Edição de Setembro de 2012, à qual tive acesso hoje. Confesso que não li o texto na íntegra ainda (sim, é bem longo), mas dando aquela olhada rápida - que alguém uma vez se referiu como "leitura diagonal" (?) - concordei em gênero, número e grau com o autor, que levanta questões bastante delicadas e que muitos de nós (assim como eu, até que decidi abolir certos 'ingredientes' da minha culinária) prefere não lembrar na hora da refeição. Segue um trecho da matéria (o mais pungente que eu li até agora).
 
"Levando em conta o lugar onde este artigo será publicado e minha própria falta de sofisticação culinária, tenho curiosidade de saber se o leitor se identifica com quaisquer dessas reações, confissões e desconfortos. Também não quero soar excessivo ou moralista, quando na verdade o que sinto é confusão. Perguntas aos leitores de Gourmet que apreciam refeições bem-feitas e bem-apresentadas envolvendo carne de vaca, vitela, cordeiro, porco, frango, lagosta etc.: Vocês pensam muito sobre a (possível) condição moral e o (provável) sofrimento dos animais envolvidos? Se pensam, quais convicções éticas desenvolveram para se permitir não apenas comer, mas também saborear e desfrutar de iguarias à base de carnes de animais (pois o desfrute refinado, em contraste com a mera ingestão, é naturalmente a razão de ser da gastronomia)? Se, por outro lado, vocês não dão a menor bola para confusões ou convicções e acham coisas como o parágrafo anterior puro umbiguismo sem sentido, o que em seu íntimo faz vocês sentirem que não existe realmente problema algum em desconsiderar de forma peremptória toda essa questão? Isto é, a recusa em pensar nessas coisas seria o produto de um raciocínio ou na verdade vocês apenas não querem pensar sobre o assunto? E se for isso mesmo, por que não? Vocês chegam a pensar, mesmo à toa, sobre as possíveis razões dessa relutância em pensar no assunto? Não estou tentando importunar ninguém – minha curiosidade é genuína. Afinal de contas, ser muito consciente, atencioso e cuidadoso a respeito do que se come e de todo o contexto englobante não é parte do que distingue um verdadeiro gourmet? Ou toda a atenção e a sensibilidade extraordinárias do gourmet devem se limitar ao sensorial? Tudo poderia realmente ser resumido a uma questão de sabor e apresentação?
Estas últimas indagações, todavia, ainda que sinceras, obviamente envolvem questões muito maiores e mais abstratas a respeito das conexões (caso existentes) entre estética e moralidade – sobre o que realmente significa o adjetivo em uma expressão como “A Revista da Boa Vida” –, e essas questões levam diretamente a águas tão profundas e traiçoeiras que talvez seja melhor encerrar por aqui a discussão pública. Existem limites mesmo para o que as pessoas interessadas podem perguntar umas às outras. J
 
A matéria na íntegra está disponível aqui.

Seguindo este mesmo raciocínio, segue aqui o link para o novo curta metragem promovido pelo Instituto Nina Rosa, cujo título é "A engrenagem". Vale a pena assistir.


Ainda hoje, durante almoço com os queridos engajados na causa da ONG Oitovidas. estávamos comentando sobre as diferentes opções de dieta e as questões envolvidas na tomada de decisão de comer ou não carne.

Quem de nós ousaria fazer estas perguntas a si mesmo? E quantos desta minoria ainda sim manteria sua consciência 'em paz'? Eu, definitivamente, optei por ter minha consciência mais tranquila na hora das refeições. E você? Pense nisso.



domingo, 30 de setembro de 2012

Falando em abobrinha...


Abobrinha refogada na manteiga com cheiro-verde, batata-baroa, beterraba e arroz integral. Acompanhados por bastante azeite virgem, semente de linhaça e gergelim preto.